A tua dona não vai saber que eu fiz isto, como não soube a
confusão que me fazia a tua existência quando te apresentou e como não soube o
quanto estranhei a tua ausência no fim.
Frau, diminutivo do alemão Fraulein, qualquer coisa como senhorita
em português e eu até há pouco tempo pensei que queria dizer princesa. Tão
apropriado que era quase perfeito. Para além de Fraaaaau ser, por coincidência,
muito parecido a pôr por escrito o som do miar de um gato...Havia ali qualquer
coisa de aristocrata na maneira desta gata existir. A gata não se alterava, tão
típico das princesas para quem alterar-se era demasiado mundano e era contra o
tipo de comportamento que deviam exibir em público,ela raramente se
"irritava" ou estava demasiado entusiasmada. Esta gata não vinha
constantemente contra a tua perna ou miava para te chamar a atenção, parecia
não precisar dela e de alguma forma dá-la por garantida. A Frau não gostava da
rua, vinha à janela, poderia vir à zona das escadas mas não se afastando mais
que 50cm da porta da entrada em nenhum momento, vivia no seu palácio e
misturar-se com os da rua era um disparate no qual não acreditava.
Esta gata conseguiu desconstruir para mim o mito de que devemos
desconfiar de todos os gatos porque são traiçoeiros. O mito que a religião
cristã criou para diabolizar um símbolo da cultura egípcia, cultura essa que
tinha uma abordagem pagã oposta ao sistema de crenças cristão (os gatos eram
sagrados no Egípto e havia a deusa Bastet que era um gato). Aliás, como de
resto diabolizou outras tantas figuras de culturas diferentes com o mesmo
objectivo. Por exemplo o Deus grego Poseidon e o seu tridente antecedem o que
na cultura cristã veio a ser utilizado como um acessório da figura do Diabo,não
a pondo à frente ou atrás de outras religiões mas este mito deixou de funcionar
comigo. A Frau rompeu com alguns medos que foram incutidos na minha educação e
com o tempo conquistou-me, tornando-se uma gata anti-stress a quem volta e meia
pedi emprestado o pelo para, com umas festas, destilar alguma azia que os
problemas traziam. Entretanto o meu pai comprou um desperdício de tapete a quem
chama gato, uma reencarnação de Lúcifer que me fez perceber ainda melhor que
esta gata era incrível. Por isso este texto também não é para ser percebido
como uma exaltação dos gatos.
Passou mal nos últimos tempos, mas lutou que nem uma campeã,
soube há pouco tempo que morreu passados uns 15 anos. Este texto
não é para ela, porque apesar de incrível nunca deu sinais de saber ler. O
texto é para mim, é uma tentativa de dar alguma resposta à estranheza de saber
que morreu A Gata e saber que sou dos poucos que pode perceber o que quer dizer
o que digo quando digo que: Um dia gostava de ter, não um gato,mas uma Frau.
DN
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