Hoje senti-me um estranho na minha cidade. Perdido também geograficamente mas confuso por estar no meio de qualquer coisa que quase se podia tocar e não conseguir perceber a sério o que me rodeava. Curioso,completamente desperto para tudo, vício de me tentar orientar por referências que me possam situar para avaliar por comparação a qualquer coisa e tentar compreender, mas ao mesmo tempo sem saber a que estar atento por isso sempre a escorregar para o desequilíbrio. Vivi mais do que compreendi.
Tive a sorte em herdar a liberdade que foi conquistada por alguns dos presentes nesta comemoração e por outros que já não se vêem, mas não vivi em ditadura e não vivi a vitória de sair dela, apenas desfrutei. "Eles" que viveram essa ausência de liberdade estavam lá com a voz embargada e na alegria que a comunhão de estado de espírito traz. Deixando para outros textos a discussão do conceito mais lato de liberdade, dúvida legítima,mas que em si é um luxo dos tempos modernos. Naquela altura era claro e consensual o que era liberdade, mais fácil de definir por oposição ao que viviam. E perdoem-me o meu francês mas só me lembro de um: - Foda-se, muito obrigado pela referência que é ver alguém disposto a morrer por um ideal, por um valor partilhado e não viver uma vida inteira orientado para um valor individual. Sem hipocrisias ou superioridade moral, também fui formatado para ter como referência o que os meios de comunicação me dão e o que a escola me ensina. Não posso é ter medo de assumir que vou lutar por mais que isso- O 25 de Abril também é literalmente quando um homem quer.
Acabo com um ponto de exclamação em forma do poema desta Senhora:
"25 DE ABRIL
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
Sophia de Mello Breyner Andresen"
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